Na virada do século, em 2001, o diretor Steven Spielberg, fez o mundo pensar através de um grande lançamento cinematográfico, o filme “A.I. – Inteligência Artificial”. O filme, que já está completando 25 anos, trouxe então um conceito de inteligência artificial associado à robótica, algo que visualmente para o cinema faz muito sentido, sempre encanta os olhos a maneira como os robôs podem se antropomorfizar. As crianças dos anos 70 e 80, com certeza se lembrarão do desenho dos “Jetsons” e seu mundo futurístico… Mas a proposta do filme pode nos levar a refletir a nossa realidade atual: ali o pequeno robô é adquirido justamente para suprir a carência dos humanos, sobretudo no que talvez nos torne mais humanos, que é a capacidade de amar.
Com o correr dos anos, as profecias cinematográficas e das animações ainda não alcançaram tanto respaldo. Mas hoje não se pode negar que uma das palavras que estão mais em voga é justamente a “IA – Inteligência Artificial”. O que mudou, ou como se transformaram os conceitos do passado (robôs capazes de entender e de responder à linguagem humana) no que hoje temos (computadores e máquinas que simulam o aprendizado, a compreensão, a resolução de problemas, a tomada de decisões…)?
Bem, a despeito de diversas dificuldades no campo da robótica, desde 2024, a maioria dos pesquisadores, profissionais de IA voltaram seu foco para os avanços na chamada IA generativa (IA gen), uma tecnologia que permite criar conteúdo original complexo, como texto longo, imagens de alta qualidade, vídeo ou áudio realista e outros conteúdos originais, em resposta a solicitação do usuário. Para aqueles que estão sempre ligados aos avanços, pulamos das antigas pesquisas nas bibliotecas para os textos produzidos por IA. O grande risco: atrofiar o pensamento humano e recuar onde antes parecíamos avançar, ou seja, acreditar que basta comermos a “maça” para nos tornar como Deus.
O Papa Leão XIV também despertou o coração da Igreja para este tema tão atual, com um foco no uso ético da inteligência artificial e na valorização da comunicação interpessoal face à tecnologia, o Papa trouxe a mensagem “Preservar vozes e rostos humanos” para o 60º dia das Comunicações Sociais (17/05). Para Leão XIV a tecnologia digital corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana. “Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas”, alerta o Papa.
O certo é que hoje, quando nos conectamos às redes sociais, torna-se cada vez mais difícil discernir se estamos interagindo com nossas buscas pessoais ou se estamos sendo manipulados pela IA. Afinal, quem nunca teve a sensação de que, um interesse momentâneo, se tornou constante nos nossos “feeds” (fluxos de informação). Esta manipulação de escolhas pessoais pode se tornar ainda mais desastrosa quando começa a entrar em campos como a política e até discernimentos de valores morais e éticos. Risco ainda maior quando nos prende a uma sensação de “eterno retorno”, em ciclos que podem levar a um mal que afetará a própria condição psicológica.
Leão XIV lembra-nos que o desafio não é impedir a inovação digital, mas fazer com que estes avanços possam trabalhar em favor do ser humano. Para isso o Papa nos aponta três pilares fundamentais: responsabilidade, cooperação e educação. Em suma, reponsabilidade por parte dos que produzem e dos governos e legisladores para um uso adequado da IA, cooperação de todas as partes interessadas e envolvidas e educação para aumentar a capacidade de uma reflexão crítica e criar uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.
Só como uma curiosidade final, Papa Leão pediu que os padres não usem IA para produzir as reflexões e homilias para os fiéis. Com uma biblioteca extensa de biblistas, teólogos, espiritualistas e tantos mais na tradição católica, o uso da IA seria um verdadeiro pecado.